Calor faz mal à saúde. E seus danos expõem a vulnerabilidade ao perigo das altas temperaturas. O termômetro nem precisa chegar a 40ºC para que pessoas morram. E a desidratação é um denominador comum nas vítimas. Uma pesquisa na prestigiosa revista médica Circulation mostrou que a partir de 36ºC, há um excesso de 9 mortes a cada 1.000 por AVC e doenças isquêmicas, isto é, associadas à redução ou interrupção do fluxo do sangue, como infarto.
Os dados se referem ao município do Rio de Janeiro, mas o estudo destaca que o Brasil está entre os países mais afetados pela mortalidade cardiovascular relacionada a temperaturas extremas. Porém, as cidades litorâneas e de clima tropical apresentam maior risco devido à combinação de temperaturas elevadas e alta umidade.
— Se não fossem as altas temperaturas, pessoas não teriam morrido. Infarto, AVC, problemas de pressão e renais. Tudo isso piora. E estudos epidemiológicos como o nosso são a ponta de um iceberg de morte, doença e sofrimento — explica uma das autoras brasileiras do estudo, Micheline Coelho, pesquisadora colaboradora da Universidade Monash (Austrália) e do Laboratório de Poluição Atmosférica Experimental da Universidade de São Paulo (USP).
Coelho é uma das coordenadoras da equipe brasileira na Multi-Country Multi-City (MCC, muitos países muitas cidades), uma rede internacional de pesquisa sobre o impacto do clima na saúde urbana. Ela diz que é fácil não se importar com o calor quando se está no ar condicionado, mas frisa que o país precisa levar política climática a sério.
— Temos décadas de alertas e estudos da ciência. Mas falta ação política de autoridades e consciência da sociedade. É inadmissível, por exemplo, que existam hospitais sem ar condicionado ou trabalho braçal sob o sol quente — destaca Coelho
O estudo Associations Between Extreme Temperatures and Cardiovascular Cause-Specific Mortality: Results From 27 Countries (“Associações entre Temperaturas Extremas e Mortalidade por Causas Cardiovasculares Específicas: Resultados de 27 Países”, em tradução livre) ressalta que a mortalidade por calor extremo é particularmente alta entre idosos e pessoas com doenças cardiovasculares preexistentes.
Todo o sistema circulatório fica sobrecarregado pela tentativa do corpo em regular a temperatura interna. O ser humano precisa manter constante a temperatura interna a 36,5ºC, não importando a temperatura exterior. Em dias muito quentes, para conseguir isso o corpo fica sobrecarregado. A sensação de desconforto é grande. E o calor pode causar lesões, agravar doenças preexistentes e, em alguns casos, matar.
Crianças são vulneráveis porque seu sistema de regulação térmico é imaturo. Mas mesmo jovens saudáveis podem ser afetados se expostos ao calor extremo e estiverem desidratados, alerta Fábio Gonçalves, professor de biometeorologia da Universidade de São Paulo (USP) e um dos maiores especialistas do Brasil no impacto do calor.
A vida numa sauna
Gonçalves, autor de numerosos estudos, mas que não participou do trabalho na Circulation, diz que o calor deste fevereiro, por exemplo, tem feito com que milhões de brasileiros vivam como se estivessem dentro de uma sauna úmida.
Tanto a temperatura quanto a umidade estão elevadas. E a umidade sabota a tentativa do corpo de eliminar o calor pelo suor. É assim que nosso organismo expulsa até 80% do calor e evita colapsar. Com umidade, o suor não evapora e se acumula sobre a pele, mantendo o calor e dando a sensação de corpo pegajoso.
O volume de suor varia de uma pessoa para outra. Mas, por exemplo, pessoas que trabalham ao ar livre podem suar mais de 10,5 litros num dia muito quente.
A sauna é úmida, mas o sofrimento é a seco.
— As pessoas não bebem água suficiente nem quando não está quente — alerta Gonçalves.
Em temperaturas muito elevadas, um adulto precisa de três litros de água por dia, se não fizer atividade física. Se fizer, esse consumo pode chegar até seis litros, dependendo do nível de atividade. Mais que isso, pode haver hemólise (destruição de hemácias).
O fisiologista Olly Jay, da Universidade de Sydney e referência mundial nos riscos do calor, recomenda que as pessoas podem se disciplinar para beber um copo de água por hora em dias muito quentes.
Sem tempo para elegância
As roupas claras e largas são importantes para não passar mal porque absorvem menos radiação do sol e, portanto, esquentam menos. Mas, sobretudo, porque o corpo também tenta se livrar do calor o irradiando através da pele. Para isso, dilata os vasos superficiais da pele. As roupas apertadas frustram essas defesas e a pessoa sente mais calor.
— Molhar a pele faz muita diferença e pode ajudar a prevenir complicações. São cuidados muito simples, mas a maioria não leva a sério e passa mal. Roupas como terno e gravata deveriam ser banidas. Idem para as pretas. Não estamos num momento para pensar em elegância, mas em sobrevivência — aconselha Gonçalves.
Outro dano que pode levar a complicações é que as noites quentes como as deste verão, e não apenas da onda de calor desta semana, impedem que se durma direito e minam a saúde do mais jovem e saudável dos indivíduos.
Vivendo perigosamente
Quando o termômetro sobe, aumenta a preocupação dos médicos do Hospital Estadual Alberto Torres (HEAT), em São Gonçalo, na Região Metropolitana do Rio de Janeiro. O hospital acaba de receber um prêmio internacional, o WSO Angels, pela excelência no tratamento do AVC. Mas a medicina não tem o poder de deter o calor e impedir que as pessoas passem mal.
O calor pode ser um gatilho para quem já convive com o risco, como hipertensos e obesos, sofrer um AVC. São muitas as histórias de risco, mas em comum está a desidratação, diz a neurologista Ana Beatriz Soldati.
— Muita gente talvez não tivesse passado tão mal se estivesse hidratada — frisa Soldati.
O segredo do bom resultado do HEAT está num protocolo de atendimento rápido. Pois, o sucesso do tratamento depende de que o paciente seja atendido em, no máximo, até 4 horas após o AVC.
Foi a presteza no atendimento que salvou a vida do vendedor de salgados autônomo Edson Pereira, de 61 anos. Ele ficou com o lado esquerdo do corpo paralisado, em 15 de janeiro, quando estava sozinho em casa, sofrendo com o calor, mas sem dar importância.
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Hipertenso, com obesidade e Pereira reconhece que não bebia água. Achava bobagem. Tampouco ligava para o calor, coisa normal, achava. Mas ele começou a sentir formigamento, ficou “aéreo”. Quando ligou para parentes pedindo socorro, a fala já estava enrolada.
Soldati diz que esses são sintomas clássicos de AVC e que a recomendação é correr para o hospital. Seu colega neurologista Rogério Silveira diz que no caso do AVC um minuto faz diferença.
Pereira chegou com risco de morte e completamente desidratado. Escapou por pouco e agora, ainda internado, se recupera de sequelas e celebra conseguir falar de novo, ainda que com dificuldade, e ter sido transferido da UTI para a enfermaria.
Já o aposentado Joel Oliveira de Souza despencou do telhado que consertava numa manhã quente ao ter um AVC. Aos 78 anos, hipertenso, Souza não dava importância ao calor e menos ainda para beber água. Teve a vida salva pelos médicos. Internado na UTI, tenta manter o bom humor e jura nunca mais subir num telhado.
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O telhado é o menor dos problemas. Mais difícil é a mudança de hábitos, como evitar álcool, controlar a pressão e se manter hidratado, enfatiza o intensivista do HEAT João Augusto Antoniol.
— Não é um problema deste ou daquele paciente. O calor é um gatilho. Ele vem se somar aos riscos que as pessoas com comorbidades, caso da hipertensão, correm e muitas vezes não sabem ou não dão a devida importância — observa Antoniol.
São coisas simples que fazem a diferença e podem custar a vida de muita gente, dizem especialistas.