No ano em que buscará o quarto mandato, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva vai apostar em ações voltadas à saúde das mulheres, público que representa 52,47% do eleitorado, segundo o Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Para disputar a preferência das brasileiras que irão às urnas, o governo reordenou recursos de políticas públicas da pasta que ocupa o terceiro maior orçamento da Esplanada.
Com R$ 270 bilhões disponíveis em 2026, o Ministério da Saúde promoveu uma reorganização interna para dar lastro financeiro a um pacote de medidas, especialmente na assistência à gestação e ao parto, além da prevenção a doenças e à gravidez indesejada.
Para que a prioridade fosse possível, houve áreas afetadas, como, por exemplo, a construção de Unidades Básicas de Saúde (UBS), que perdeu R$ 1,32 bilhão entres as dotações iniciais de 2025 e 2026.
A principal aposta é a Rede Alyne, política criada para enfrentar a mortalidade materna e infantil e reorganizar o atendimento às gestantes no SUS. Os valores direcionados para a implantação de maternidades passaram de R$ 685,7 milhões em 2025 para R$ 1,94 bilhão em 2026, alta superior a 180%.
A quantia sustenta a promessa do governo de construir 36 novas maternidades, com atendimento obstétrico e neonatal, inclusive de alto risco, funcionando 24 horas. Uma delas teve as verbas federais liberadas em 28 de janeiro, em Japeri, na Baixada Fluminense, em unidade que servirá de referência para outros oito municípios. Os recursos para a implementação da rede, que incluem despesas de custeio, cresceram de R$ 134,2 milhões em 2025 para R$ 199 milhões em 2026.
As comparações consideram as dotações iniciais previstas nas leis orçamentárias de 2025 e 2026, antes da execução financeira ao longo dos anos e sem a incorporação de créditos adicionais, remanejamentos ou emendas parlamentares.
O Ministério da Saúde afirmou em nota que as ações voltadas às mulheres estão entre as “prioridades” desde o início do governo e não são “iniciativas exclusivas de 2026”. O texto acrescenta que a expansão dos recursos é condizente com a “representatividade demográfica” e as metas da gestão. Sobre as UBS, a pasta diz que a maior parte das obras foi contratada em 2024, o que tornou natural um maior investimento em 2025.
Pesquisas
A redistribuição de recursos do ministério partiu da decisão política do governo de ampliar o foco em mulheres. Pesquisas encomendadas pelo Palácio do Planalto identificaram um afastamento do público feminino do governo e apontaram que a saúde é a principal preocupação desse grupo.
Há uma avaliação entre aliados de Lula de que o discurso de violência contra a mulher e mesmo o Pacto Entre Poderes contra o feminicídio são insuficientes para atrair esse público e que o governo precisa entregar políticas concretas de proteção e cuidado.
Na avaliação da diretora-executiva da Transparência Brasil, Juliana Sakai, o Orçamento tem itens definidos de forma genérica, sem pontuar o planejamento para escolha do volume de recursos para determinada política pública, o que facilita o remanejamento sem justificativa ou mesmo com viés eleitoral:
— Falta dinheiro, então é preciso insumo técnico para tomar a decisão de Orçamento. Não é possível simplesmente modificar aos 45 do segundo tempo para tentar atender base eleitoral. São necessários indicativos para definir o mínimo de cada área, o que não está presente hoje e deixa uma discricionariedade muito grande para puxar recursos de um lado para outro.
Verbas para a construção de centros de parto normal, exames de pré-natal e implantes de contraceptivos também tiveram salto. Houve ainda incremento nos investimentos voltados à produção nacional da vacina contra o HPV, vírus diretamente associado ao câncer de colo do útero, uma das principais causas de morte por câncer entre mulheres.
Agendas
Lula começou 2026 priorizando agendas na área da saúde. Até a última sexta-feira, fez seis eventos voltados a entregas de equipamentos e visitas. Em 6 de fevereiro, em Salvador, Lula participou de evento que marcou 14,7 milhões de cirurgias eletivas realizadas em todo o país em 2025, maior número registrado em um ano, segundo o Ministério da Saúde.
Fonte: O Globo


