11 hábitos que parecem inofensivos, mas podem ser sinais de doença

Roer as unhas é um dos hábitos que podem sinalizar a necessidade de avaliação médica Foto: Sebra/Adobe Stock

Pequenos gestos repetitivos do dia a dia, como morder o lábio, estalar os dedos ou checar se a porta está fechada várias vezes, costumam ser tratados como traços de personalidade ou manias. Contudo, dependendo da frequência e de como impactam a rotina, tais hábitos podem funcionar como sinais de alerta para condições médicas.

Especialistas ouvidos pela reportagem alertam, porém, que nem sempre é fácil perceber quando um comportamento passa a indicar algo mais preocupante. Por isso, é essencial contar com uma avaliação criteriosa. “Nenhum dos sintomas indica com certeza que existe uma patologia por trás”, reforça o psiquiatra Daniel Oliva, do Espaço Einstein de Saúde Mental e Bem-Estar.

O alerta surge quando a repetição se intensifica, causando lesões ou gerando sofrimento. Nesse caso, olhar o contexto e contar com ajuda especializada é o mais indicado para não ficar na dúvida.

A seguir, confira 11 hábitos que merecem ser discutidos com um profissional de saúde.

1- Roer as unhas

Trata-se de uma condição conhecida como onicofagia. Costuma estar associada à ansiedade, ao estresse crônico e, em alguns casos, a transtornos do controle de impulso ou ao transtorno obsessivo-compulsivo (TOC).

Segundo Cristina Abdalla, dermatologista do Hospital Sírio-Libanês, é comum que as pessoas relatem que o comportamento é automático, principalmente em momentos de tensão.

Do ponto de vista dermatológico, ela explica que isso pode provocar inflamação ao redor das unhas, além de infecções e até deformidades permanentes da lâmina ungueal, que é a parte visível e mais resistente da unha.

A dermatologista informa que, nesses casos, é crucial buscar por terapia. Outras táticas que também podem ajudar: “Manter as unhas curtas, bem cuidadas e usar esmaltes com gosto amargo são estratégias eficazes”, exemplifica.

2- Cutucar a pele

Conhecido como skin picking, transtorno de escoriação ou dermatilomania, o hábito de gerar lesões na pele – seja manipulando, apertando e arranhando – também pode estar ligado à ansiedade e ao TOC. Estudos apontam que o quadro pode afetar cerca de 5% da população.

“Muitas vezes começa com a manipulação de acne, cravos ou pequenas irregularidades da pele, mas pode evoluir para feridas recorrentes, cicatrizes e manchas persistentes”, descreve a dermatologista.

Em alguns casos, diz, há associação com transtorno dismórfico corporal, que ocorre quando a percepção da própria imagem fica distorcida.

Esse é outro hábito que demanda um olhar tanto voltado ao bem-estar emocional quanto à saúde da pele em si para o controle dos prejuízos dermatológicos.

3- Arrancar os cabelos

Clinicamente, essa prática é conhecida como tricotilomania, termo que é resultado da junção das palavras gregas para “cabelo” (trico) e “puxar” (tilo). A condição tende a ser mais comum em mulheres, segundo estudos de revisão.

Classificada como transtorno do controle de impulsos e do espectro obsessivo-compulsivo, a tricotilomania é frequentemente ligada à ansiedade, ao estresse intenso ou a conflitos emocionais.

Dermatologicamente, Cristina explica que ela causa falhas irregulares no couro cabeludo, com fios quebrados em diferentes comprimentos. Essa característica, inclusive, é o que a diferencia da alopecia, doença que causa a queda repentina dos fios.

A principal abordagem para controlar esse quadro é buscar tratamento psicológico, especialmente focado em técnicas de reversão de hábitos.

4- Coçar os olhos

Segundo Cristina, essa prática pode estar ligada a alergias, como conjuntivite alérgica, rinite alérgica ou dermatite atópica. Também pode ser disparada por olho seco ou blefarite, uma inflamação na borda das pálpebras.

Embora seja um hábito automático para muita gente, o atrito constante pode agravar inflamações e favorecer complicações oculares, segundo a dermatologista.

É o caso do ceratocone, doença que deforma a córnea causando embaçamento da visão e se agrava justamente com o hábito de coçar os olhos.

Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) estimam que até 1 bilhão de pessoas tenham problemas de visão que poderiam ser evitados, sendo que parte deles está relacionada a condições que causam irritação ocular.

O tratamento passa por identificar a causa de base, com orientação oftalmológica e uso de colírios apropriados.

Compressas frias podem aliviar o desconforto, mas evitar a fricção é fundamental. “Se o comportamento causa dano à pele, às unhas, aos cabelos ou aos olhos, vale procurar avaliação médica”, orienta.

5- Xixi noturno

Acordar para ir ao banheiro durante a madrugada pode parecer algo trivial, principalmente com o avançar da idade. No entanto, ir mais de uma vez por noite requer atenção.

No Brasil, o sintoma atinge 27% dos homens acima dos 40 anos e 23% das mulheres na mesma faixa etária, segundo pesquisas.

Segundo Lucio Huebra, neurologista do Hospital Sírio-Libanês e membro da Associação Brasileira do Sono (ABS), o quadro recebe o nome de noctúria e pode estar relacionado a distúrbios do trato urinário, como incontinência, bexiga hiperativa e aumento do volume prostático. Distúrbios do sono também entram na lista de possíveis causas.

A apneia do sono é um dos possíveis motivos, aponta Huebra, pois pode aumentar a produção de urina durante a noite e provocar despertares frequentes.

Ele orienta reduzir a ingestão de líquidos no período noturno e ajustar o uso de medicações diuréticas, mas destaca que o ideal é buscar avaliação médica para investigar a causa e melhorar a qualidade do sono.

6- Ronco

Quando alto e frequente, ele merece atenção especial. “O ronco é a respiração ruidosa que acontece durante o sono quando há algum grau de obstrução da via respiratória”, explica Huebra.

Em alguns casos, o médico alerta que esse pode ser um sinal de apneia obstrutiva do sono, condição associada a um maior risco de eventos cardíacos, diabetes, hipertensão e acidente vascular cerebral (AVC).

Por isso, quando o ronco é intenso e vem acompanhado de pausas respiratórias, sonolência excessiva ou cansaço persistente, Huebra recomenda investigação com a polissonografia, exame realizado durante o sono.

Vale lembrar que o consumo de álcool à noite e uso de medicamentos sedativos podem piorar o quadro, segundo o neurologista.

7- Estalar os dedos

“Isoladamente, aponta para questões de ansiedade e preocupação”, explica Oliva. Nesses casos, o estalo funciona como uma forma de descarga de tensão.

O psiquiatra diz que o primeiro passo é observar quando o comportamento acontece e se há outros sintomas associados.

Ele também sugere técnicas simples, como respiração diafragmática, para ajudar a trazer alívio e servir como alternativa ao hábito.

Agora, se notar dor, inchaço ou limitação de movimento ao estalar os dedos, faz sentido avaliar a presença de um problema ortopédico ou reumatológico.

8- Checar algo diversas vezes

Voltar para conferir se a porta está trancada ou se o gás está desligado pode ser um indício de distração. Porém, quando a checagem se torna repetitiva, acompanhada de pensamentos intrusivos e sensação de perda de controle, pode indicar algo mais sério.

“Se isso vem com uma sensação de descontrole, de necessidade, de um comportamento para anular um tipo de pensamento, pode caracterizar um TOC”, afirma Oliva.

Por isso, quando o comportamento começa a motivar atrasos em compromissos ou gerar sofrimento, é importante buscar avaliação com psiquiatra ou psicólogo. Afinal, a OMS inclui o TOC entre as 10 doenças mais incapacitantes do mundo.

Se não houver transtorno associado, Olivia diz que criar rotinas e estar mais atento no momento da checagem podem evitar a repetição.

9- Morder os lábios

Assim como roer unhas, o psiquiatra do Einstein diz que, em geral, esse também é um comportamento automático que surge em situações de estresse e nervosismo.

Segundo ele, é preciso se preocupar quando o hábito “começa a formar ferida no lábio e a gente sente que não consegue parar mesmo assim.”

Antes que a prática cause lesões, ele orienta que o foco seja a identificação de possíveis gatilhos e a busca por alternativas de substituição sensorial, como mascar chiclete.

Se houver feridas frequentes ou sensação de perda de controle, a recomendação é de procurar um médico.

10- Procrastinar

Deixar tarefas para depois é comum, especialmente em períodos de cansaço. Mas quando a procrastinação é constante e gera prejuízo na rotina, pode estar ligada a questões como ansiedade, transtorno do déficit de atenção com hiperatividade (TDAH), burnout e até privação de sono.

“Pode ter a ver, também, com transtornos depressivos, quando a pessoa até quer fazer (algo), mas não tem energia, pique e ânimo para aquilo”, explica Oliva.

Identificar a causa de base é fundamental, segundo o psiquiatra.

Além disso, dividir tarefas grandes em etapas menores, reduzir distrações e utilizar técnicas como o método Pomodoro (que intercala períodos de foco e pequenas pausas) podem ajudar a retomar a produtividade no dia a dia.

11- Balançar as pernas

Dependendo do contexto, esse hábito pode ser incitado por ansiedade, TDAH ou consumo excessivo de estimulantes, como cafeína e energéticos.

Agora, se o movimento acontece principalmente à noite, acompanhado de desconforto difícil de descrever, pode ser sintoma de síndrome das pernas inquietas. Nesse caso, os dados estimam que a condição acometa até 15% da população adulta, sendo mais comum com o avançar da idade e entre mulheres.

Na prática, essa síndrome causa uma sensação de desconforto, que exige que as pernas fiquem sendo movimentadas constantemente para ter alívio, explica Oliva.

Nesses casos, é imprescindível buscar avaliação médica e investigar possíveis causas, como a deficiência de ferro.

Quando buscar ajuda médica?

Os médicos destacam que não é sensato assumir automaticamente que há um diagnóstico confirmado apenas por ter um ou outro hábito. No entanto, diante de algum comportamento repetitivo, a recomendação é não banalizá-lo.

Por isso, o recomendado é buscar avaliação médica ou psicológica, de acordo com a “mania”, para assim dar início a uma investigação clínica e evitar complicações.

Em alguns casos, eles concordam, ter acompanhamento especializado é suficiente para que hábitos incômodos percam força e deixem de ser um problema.

Fonte: Estadão

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