Visto negado a assessor de Trump e recusa a receber presos elevam tensão diplomática entre Brasil e Estados Unidos

Donald Trump e Luiz Inácio Lula da Silva durante encontro na Malásia — Foto: Ricardo Stuckert / PR/26/10/2025

A temperatura entre Brasil e Estados Unidos voltou a se elevar nos últimos dias após a breve distensão iniciada com o encontro dos presidentes Donald Trump e Luiz Inácio Lula da Silva na Malásia, em outubro de 2025. Nesta sexta-feira, o governo brasileiro anunciou a retirada do visto do assessor do Departamento de Estado dos EUA Darren Beattie, que planejava vir ao Brasil visitar o ex-presidente Jair Bolsonaro na prisão sem avisar ao Itamaraty, enquanto nos bastidores os dois países seguem a negociar planos de cooperação no combate ao crime organizado. A mais recente proposta americana inclui reproduzir no país modelo semelhante ao adotado em El Salvador, com a transferência de presos de outros países capturados em território norte-americano.

Segundo interlocutores do Itamaraty, a revogação do visto ocorreu porque Beattie teria prestado informações falsas ao solicitar a entrada no país. Ele afirmou que participaria de uma conferência sobre minerais críticos em São Paulo, sem mencionar a intenção de visitar Bolsonaro. Ao se posicionar contra o encontro, o governo avaliou que a agenda poderia configurar “indevida ingerência” dos americanos em assuntos internos. Autoridades concluíram que Beattie cometeu “omissão e falseamento de informações” sobre a visita.

Em evento no Rio, Lula afirmou que decidiu barrar a visita enquanto não houver solução para o caso envolvendo vistos do ministro da Saúde, Alexandre Padilha, e de sua família.

— Eu o proibi de vir ao Brasil enquanto não liberar os vistos do meu ministro da Saúde, que está bloqueado — disse.

No governo brasileiro, o caso envolvendo Beattie é tratado como caso isolado de “má-fé diplomática”, sem risco de comprometer novo encontro entre Lula e Trump, que deve ocorrer em abril ou maio.

A defesa de Bolsonaro havia obtido autorização do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), para Beattie visitá-lo na Papudinha. Na quinta-feira, porém, Moraes voltou atrás após receber informações do chanceler Mauro Vieira de que o pedido de visto mencionava apenas participação no Fórum Brasil-EUA de Minerais Críticos e reuniões com autoridades brasileiras, sem referência à intenção de visitar o ex-presidente preso por tentativa de golpe de Estado.

Cooperação na segurança

No governo brasileiro, apesar de o Departamento de Estado americano ter aumentado a pressão sobre Lula ao afirmar que Trump considera as facções brasileiras uma “ameaça significativa à segurança regional”, a expectativa é que um entendimento sobre a pauta de segurança possa ser alcançado pelos dois presidentes na reunião que deve ocorrer entre eles dentro de dois meses na Casa Branca.

A recente proposta feita pelo governo americano inclui um acordo semelhante ao que permite aos Estados Unidos enviar estrangeiros capturados em território americano para cumprir pena no Centro de Confinamento do Terrorismo (Cecot), em El Salvador. O país da América Central virou um ponto de peregrinação de políticos bolsonaristas, que defendem a adoção de um modelo similar ao adotado pelo presidente salvadorenho, Nayib Bukele, para a pauta da segurança pública.

Segundo Cristiano Maronna, diretor da Plataforma Justa, que pesquisa o judiciário e o sistema penal brasileiro, “não há qualquer base jurídica” para a proposta dos EUA.

— Não existe nada que autorize esse tipo de situação. Ao contrário, as prisões brasileiras elas foram feitas e pensadas para atender o poder judiciário brasileiro e já não dão conta disso — diz Maronna, que acrescenta — O que existe no Brasil, e isso depende de acordos bilaterais em matéria penal, é a possibilidade do cumprimento de pena de alguém que foi condenado no exterior, caso do jogador Robinho. É uma situação que não se equipara a possibilidade de receber dezenas, centenas, milhares de presos estrangeiros

A proposta, que não menciona classificar facções brasileiras como terroristas, pede que o governo brasileiro apresente medidas para combater o Primeiro Comando da Capital (PCC), o Comando Vermelho (CV), o Hezbollah e organizações criminosas chinesas com atuação no Brasil e que compartilhe informações com autoridades dos EUA, como dados biométricos de refugiados no país. A existência da nova proposta foi publicada pela “Folha de S. Paulo” e confirmada pelo GLOBO.

Integrantes do governo brasileiro descartam receber criminosos estrangeiros capturados nos EUA. A avaliação é de que o enfrentamento ao crime organizado deve se dar a partir da cooperação operacional já existente.

— Não acreditamos em soluções mágicas do tipo “plano” ou “designação como terrorista”, mas em trabalho contínuo e detalhado de cooperação, troca de informações e coordenação operacional — disse um interlocutor que acompanha as negociações.

O plano do governo norte-americano é uma contraproposta ao que foi apresentado por Lula em conversa com Trump no fim do ano passado, quando o Brasil propôs cooperação no combate, por exemplo, à lavagem de dinheiro. Na época, Lula citou o caso do dono da Refit, Ricardo Magro, que está foragido nos EUA. Dias antes, a empresa havia sido alvo de uma megaoperação da PF por fraude no mercado de combustíveis.

— Temos o maior traficante de combustível do Brasil que mora em Miami. Fiz questão de dizer: ‘Presidente Trump, vamos começar a combater o narcotráfico pegando os brasileiros que estão aí — disse Lula à TV Verdes Mares após a conversa com o americano.

Outro tópico abordado por Lula na conversa foi o uso do estado americano de Delaware para lavar dinheiro sujo de fraudadores brasileiros. Esse teria sido o caso da Refit, empresa de Magro, que movimentou R$ 72 bilhões em offshores.

Para o professor de Relações Internacionais da ESPM Gunther Rudzit, o tema da lavagem de dinheiro foi trazido à mesa de negociações pelo governo brasileiro para mostrar boa vontade.

— Era interessante demonstrar intenção de cooperar em uma agenda central do governo Trump quando começávamos a negociar tarifas, mantendo autonomia, mas mostrando disposição — diz Rudzit, destacando que os dois países têm histórico de cooperação bem-sucedida no combate a crimes transnacionais.

Rudzit avalia que outro aspecto importante da negociação, a possível classificação do PCC e do CV como organizações terroristas, faz parte de uma pauta do governo Trump para todo o continente, não tendo como foco apenas o Brasil. Em janeiro de 2025, o termo foi usado para designar o grupo venezuelano Tren de Aragua, que mantém vínculos com o PCC, além do Cartel de Sinaloa, do México, dentre outros. No Brasil, no ano passado, a classificação de facções brasileiras na mesma categoria foi apoiada por políticos da oposição.

— Mais cedo ou mais tarde, a Casa Branca ia querer isso. É uma agenda para o hemisfério — diz Rudzit que, como outros especialistas, vê na volta do debate sobre pauta da segurança entre EUA e Brasil um elemento favorável à oposição.

Fonte: O Globo

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