Tratamento inovador para recuperação de lesões medulares ganha superexposição e vira pauta política. Ampliação do espaço ao tema aumenta a visibilidade do capacitismo que a população com deficiência encara todos os dias.
Todos querem um pedaço do sucesso da pesquisa liderada pela professora Tatiana Sampaio, chefe do laboratório de biologia da matriz extracelular do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), sobre o uso da Polilaminina na recuperação de lesões medulares.
O estudo 100% brasileiro, conduzido por uma equipe de instituição pública, está em fase de testes clínicos autorizados pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e tem mostrado resultados tão importantes que entrou na mira da judicialização para acelerar a aplicação.
Também virou o tema do momento na imprensa e nas redes sociais. E foi politizado, transformado em pauta de candidatos a candidatos nas eleições deste ano, inclusive quem, até outro dia, abraçava movimentos anticiência.
Tatiana Sampaio foi entrevistada nesta segunda-feira, 23, ao vivo, no programa Roda Viva, da TV Cultura, e afirmou que há uma excesso de exposição sobre o assunto, com repercussões que os pesquisadores não podem controlar.
Ela também esclareceu declarações anteriores sobre perda de patentes entre 2015 e 2016 por “corte de recursos para as universidades federais”, feitas ao programa ‘Conversas com Hildgard Angel’, da TV247, em 24 de janeiro.
“Fiz essa afirmação numa entrevista que tinha um clima de bate-papo. Eu imaginava que seria editada. Me senti à vontade demais e acabei falando demais, fui imprecisa na minha afirmação”, disse a professora.
“Em 2014 houve uma avaliação da UFRJ de que não valia mais a pena continuar pagando os pedidos de patente nos Estados Unidos e na Europa. Então, quando a gente tem uma patente, você faz, na verdade, um pedido, tem que manter isso vivo por um tempo até ela ser finalmente avaliada, se vai ser concedido ou não. Isso tem custo, evidentemente. Eles avaliaram que era um custo alto que não valeria à pena pagar. Resolveram por uma decisão que me foi comunicada, eu não concordava, mas não era uma decisão minha, e suspenderam o pagamento, uma decisão técnica”, afirmou a pesquisadora.
“Em 2016 recebi um comunicado da agência de inovação da UFRJ de que eles não tinham recurso naquele ano para pagar a anuidade da patente brasileira, que ainda estava vigente, e perguntaram se eu gostaria de pagar para não perder. Paguei aproximadamente 500 reais. E o valor da patente internacional acho que é da ordem de mil dólares”, contou.
A ampliação do espaço aberto a esse tema com maior exposição de pessoas paraplégicas e tetraplégicas também aumenta a visibilidade do capacitismo que a população com deficiência é obrigada a encarar todos os dias. Gente que usa cadeira de rodas por qualquer motivo tem sido abordada por amigos e familiares eufóricos, e desinformados, com a possibilidade da tal “cura”, reforçando o pensamento eugenista sobre a deficiência.
Entre hoje e o dia que um remédio será capaz de extinguir todas as deficiências, como muitos imaginam, está a vida cotidiana da pessoa com deficiência, que precisa da acessibilidade e tem direito garantido à inclusão, mas não recebe uma coisa nem outra.
Fonte: Estadão


