A morte do cão Orelha despertou um luto e uma fúria em todos nós –tutores ou não. O assassinato do Orelha é um espelho quebrado e cortante de uma sociedade hostil e violenta, com animais e com pessoas.
Dói imaginar a cena. Pauladas, pregos, pauladas, o cérebro exposto. Paraliso e a fúria nasce outra vez. Uma eutanásia foi a única solução ao sofrimento. Não consigo entender a razão que faria alguém cometer tamanha atrocidade.
Maus tratos e abandono de animais são crimes previstos por lei no Brasil desde 1998, com pena ampliada de 2 a 5 anos desde 2020. Mas o que acontece quando agressores são protegidos por seu poder aquisitivo e relações de poder?
Desde que adotei minha cachorra Tuca, eu a vejo nos olhos de todos os bichos. Meu cheiro mudou e eles passaram a se aproximar de mim. É um trato de amor a confiança de um bicho. Adolescentes se aproveitaram desse acordo afetuoso para deixar um cachorro em agonia.
Orelha era um cão comunitário que há dez anos vivia na Praia Brava, em Florianópolis (SC). Brincava, comia, dormia ali. “Era dócil”, dizem moradores em sua defesa. Cães comunitários estão presentes em legislações de diversos estados pelo Brasil e não são lidos como cães abandonados: são animais com diversos tutores, recebem cuidados como vacina, alimentação e abrigo contra o frio ou calor.
Um cão comunitário integra a paisagem, a história e as memórias do lugar. Está inscrito na geografia física e simbólica desse espaço. Ao ser arrancado repentinamente –e de maneira cruel e violenta –da vida de dezenas de pessoas que conviviam e cuidavam dele diariamente, a morte de Orelha deixa um rastro de dor infinita. Um luto profundo pelo animal, por vezes, não reconhecido na sociedade.
A violência contra Orelha é um ataque contra uma comunidade inteira e seus esforços de cuidado e de amor com um animal, e, consequentemente, para com o próprio território. Se foram capazes de quebrar o código de paz sem limites, podem quebrá-lo novamente. E isso assusta.
Nos vemos na situação e, por isso, torna-se um luto coletivo: atravessa não apenas as ruas onde Orelha vivia, mas toda e qualquer rua onde haja um bichinho sendo cuidado coletivamente.
Há 160 milhões de animais de estimação no Brasil. Pelo menos 30 milhões de cães e gatos abandonados por todo o Brasil hoje. Cerca de 4,8 milhões estão em condições de vulnerabilidade no país, segundo o Instituto Pet Brasil. O abandono é uma questão de saúde pública, exigindo olhar multifatorial, e quando a comunidade age, é sua forma de combater o problema.
O vínculo e a dor devem ser respeitados. “Cada pessoa que cuidou dele ou que se envolveu tem alguma passagem, memórias e vivências e isso precisa ser validado. Todos que conviveram com o Orelha, independente do grau de responsabilidade que tinham sobre a vida dele nesse compartilhamento de cuidado, estão vivendo um luto”, diz a psicóloga Patrícia Vidal, especialista em luto por perda animal.
Quando a morte é violenta, o luto se torna ainda mais difícil de ser compreendido. Além da saudade, surgem sentimentos de injustiça, raiva, impotência e culpa por não ter conseguido proteger o ente querido, explica Patrícia: “Para quem esteve mais próximo da morte do Orelha, soma-se ainda uma possível vivência de trauma: algo que excede nossa capacidade emocional de elaboração. Isso leva tempo para se dissipar e ser elaborado”.
No ano passado, uma gatinha comunitária da minha rua morreu após a infelicidade de entrar em uma casa com três cachorros. Senti dores no peito e nas pontas dos dedos. Era a dor da incapacidade, da impotência e do rastro de confusão que uma morte repentina deixa. Como assim ela não iria mais me esperar no portão, como se, por alguns segundos, fosse minha?
A morte desta felina não se compara à morte de Orelha, diante da crueldade que o último foi morto. Os cachorros matam uma gata por instinto, por medo ou até para proteger o território. São bichos. Mas o ser humano age de forma consciente.
Pedir justiça e sair às ruas é uma forma de honrar e ritualizar a morte, como em um velório coletivo, onde dividimos a dor e organizamos a raiva. Enquanto não houver justiça, Orelha vai continuar morrendo dia após dia.
“Podemos honrar a vida do Orelha evitando que isso continue acontecendo ou volte a acontecer. Que esta dor nos ajude a mudar esse cenário”, diz a psicóloga Patrícia Vidal.
Que essa dor esparramada dentro da gente também nos convoque a olhar com mais urgência para todo animal. Por fim, são nossos os bichos que nos acolhem. E cabe a todos nós protegê-los.
Por Jéssica Moreira -via Folha de S. Paulo


