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O ano em que a inflação de alimentos ofuscou o crescimento da economia

Samuel Silva e sua família apertaram o cinto com o aumento da inflação. Ele e a mulher hoje só pagam plano de saúde para os filhos — Foto: Fabiano Rocha/Agência O Globo

Em 2024, a taxa média de desemprego registrou o menor patamar da história, de 6,6%. O investimento teve um salto e foi um dos motores da expansão de 3,4% do PIB no ano passado. Mas na economia da vida real, o que ficou na memória popular é a inflação.

A percepção de que o custo de vida ficou mais alto é impulsionada pelo aumento do preço dos alimentos: do azeite que se tornou item de luxo e, em muitos lares, foi substituído pelo óleo ao valor da carne bovina, o brasileiro fez ginástica no orçamento para compor o menu do dia a dia.

As estatísticas corroboram o sentimento: o IPCA, índice oficial, fechou o ano em 4,83%, acima da meta de inflação. O grupo Alimentação e Bebidas foi o que mais subiu, com alta de 7,69%. Não bastassem problemas climáticos, a alta do dólar, outro fator a minar o sentimento de bem-estar, contribuiu para aumentar os preços de alimentos.

Esse movimento afeta sobretudo a população de baixa renda, na qual a comida tem peso maior no orçamento.

— A última impressão é a que fica, e a gente teve uma aceleração da inflação, principalmente de alimentos, exatamente no fim do ano, com toda a discussão de inflação da carne no último trimestre. Houve sensação de perda de poder de compra — diz Luis Otávio Leal, economista-chefe da G5 Partners.

Leal ressalta que no ano passado o rendimento alcançou o maior patamar da série histórica do IBGE, iniciada em 2012, e chegou a R$ 3.225. Mas a inflação mais alta corroeu essa percepção:

— Você vê o consumo das famílias crescendo forte, desemprego nos menores níveis históricos. Teoricamente, isso seria suficiente para a população estar satisfeita com o rumo da economia. Mas, no fim, o que vale é dinheiro no bolso, e a inflação é como se fosse um imposto.

Não é de hoje que a alimentação cresce acima da inflação. Dados compilados a pedido do GLOBO por por André Braz, coordenador dos Índices de Preços da Fundação Getulio Vargas (FGV), mostram que, de janeiro de 2020, logo antes de a Covid-19 se abater sobre a economia mundial, e janeiro deste ano, o IPCA acumulou alta de 33,68%. Já os preços médios da alimentação no domicílio saltaram 57,55%.

Claudia Moreno, economista do C6 Bank, também vê a inflação como principal motivo para a discrepância entre os números e a percepção popular, mas menciona ainda a volatilidade do dólar.

— A gente viu no fim do ano passado depreciação forte do câmbio e isso também pode assustar. Ainda que tenha voltado a melhorar agora, esse movimento pode afetar a percepção e a confiança.

O impacto político da escalada de preços não tardou. Segundo pesquisa Datafolha, a avaliação positiva do governo caiu para 24%, o menor patamar já registrado por Lula em todos os seus mandatos. Não à toa, o governo lançou nesta quinta-feira um pacote anti-inflação, que zera alíquota de importação de nove produtos, como azeite, café e carnes, entre outras medidas.

E ontem, Lula indicou que poderia adotar “medidas mais drásticas” para baixar os preços (leia mais na página 15). O alcance das ações divulgadas, porém, é considerado limitado pelos especialistas, que avaliam que a perspectiva de safra recorde terá mais impacto para reduzir os preços dos alimentos à mesa dos brasileiros.

Os fatores que mexeram com a economia em 2024

Custo de vida

O aposentado Samuel Silva, com a mulher, Rejane, e os filhos, Gabriel e Gabriela — Foto: Fabiano Rocha
O aposentado Samuel Silva, com a mulher, Rejane, e os filhos, Gabriel e Gabriela — Foto: Fabiano Rocha

‘Tinha o hábito de fazer compra grande, agora só o essencial’

O auxiliar administrativo aposentado Samuel Silva, de 59 anos, sentiu o impacto do aumento de preços no dia a dia. Ele teve de voltar a fazer serviços de contabilidade e investiu em uma lojinha para sua mulher, Rejane, na tentativa de complementar a renda familiar.

Responsáveis pelo sustento de dois filhos, Gabriel, de 13 anos, e Gabriela, de 16 anos, eles afirmam que o orçamento tem ficado cada vez mais apertado. As viagens, antes recorrentes, já não fazem mais parte da rotina da família. Samuel diz que as compras saíram da categoria “fartura” para “o necessário”.

— Vou ao mercado e sei que está apertado. Tinha o hábito de fazer aquela compra grande, agora é só o essencial. E, mesmo assim, tive que deixar de comer o queijo branco, a carne passou a ser de segunda, o azeite não é mais o tradicional, e o café, que está caro em todas as marcas, consumimos menos. Não tem condições. O dinheiro não dura até o fim do mês — diz Silva.

No malabarismo para fazer a conta fechar, o casal ainda cortou o plano de saúde, mantendo somente os dos filhos. O mais novo estuda em escola particular, um gasto que também pesa, enquanto a mais velha estuda em escola pública.

Neste ano, houve alívio temporário em janeiro em razão do bônus da usina hidrelétrica de Itaipu, um desconto aplicado na conta de luz a consumidores residenciais e rurais com consumo mensal de até 350 kWh. Com isso, no primeiro mês do ano, a conta de luz caiu 14,21% e houve uma trégua no orçamento.

A prévia da inflação de fevereiro, porém, aumentou 1,23%, o maior patamar para o mês em nove anos, com aumento nos preços de energia elétrica e educação. Os alimentos, os vilões da alta de preços no ano passado, continuam a subir, embora em ritmo mais fraco do que no ano anterior.

Emprego

Dalvina Bezerra de Souza conseguiu uma vaga de auxiliar de produção em uma indústria farmacêutica — Foto: Divulgação/Alko do Brasil
Dalvina Bezerra de Souza conseguiu uma vaga de auxiliar de produção em uma indústria farmacêutica — Foto: Divulgação/Alko do Brasil

‘Comprar o que minhas filhas pediam e antes eu não podia dar’

Em 2024, o país gerou 1,69 milhão de postos de trabalho com carteira, alta de 16,5% no saldo de vagas em relação ao ano anterior. Uma dessas vagas é da amazonense Dalvina Bezerra de Souza, de 40 anos.

Em 2023, a empresa em que trabalhava fechou as portas e ela ficou sem trabalho após 12 anos de emprego formal. Mãe de duas meninas, de 7 e 17 anos, a carioca ficou um ano fora do mercado de trabalho.

A renda da família desabou. As contas antes divididas passaram a depender apenas do salário do marido, enquanto ela fazia bicos como boleira.

— O que conseguia com os bolos ajudava na alimentação, mas ainda tem o aluguel, as contas…. é muito difícil. Não tinha roupa nova ou sapato para as meninas, nem lazer. O máximo que tentávamos para sair da mesmice era fazer um lanche em casa no fim de semana — lembra.

Em março, Dalvina conseguiu vaga de auxiliar de produção na indústria farmacêutica. Com a melhora na renda, as compras no supermercado têm agora menos restrições, e o lazer voltou à rotina:

— Ficar parada é muito difícil. Gosto de trabalhar, ter meu dinheiro. A principal mudança foi no psicológico. Passei a dormir melhor sabendo que ia trabalhar e no fim do mês ia ter o salário e o vale-alimentação para ir ao mercado e comprar o que minhas filhas pediam e eu não podia dar.

Alta do dólar

‘Vamos esperar um dólar menos alto para retomar a viagem a Paris’

Outro fator de pressão no orçamento, nas decisões de negócios e nos planos de viagem do brasileiro foi a escalada do dólar, que ganhou força no segundo semestre do ano passado. Durante o pregão em dezembro, a moeda americana chegou a ser negociada a R$ 6,30, com a incerteza de como seria o governo de Donald Trump, nos Estados Unidos, e em relação ao rumo da política fiscal no Brasil.

Houve um arrefecimento na cotação, mas ela continua em patamar alto. Ontem, a moeda americana fechou em em alta de 0,57%, a R$ 5,79.

Seja por turbulência externa ou interna, a escalada do dólar mexeu com os planos de férias dos brasileiros. Depois de consultas seguidas ao calendário e um esforço para conciliar a agenda de férias da filha, que é psicóloga, do filho estudante e do marido, engenheiro aposentado, a bancária Giselle Gaia, de 52 anos, decidiu que as férias da família este ano seriam na França. A meta era passar dez dias em Paris e outras cidades próximas.

A escalada do dólar no fim do ano passado foi um banho de água fria para quem pretendia desembarcar na Cidade Luz em fevereiro. O orçamento saltou de R$ 22 mil por pessoa em setembro, para R$ 32 mil em novembro, já que o euro também se valorizou e parte dos custos é dolarizado.

O jeito foi olhar o mapa e trocar o destino. A família acabou mudando a rota de Paris para Natal, no Rio Grande do Norte.

— O dólar subiu muito, e a viagem ficou muito cara. Minha filha não pôde ir, e o que gastaríamos por pessoa na França pagou toda a viagem para Natal para mim, meu marido e meu filho — calcula.

Antes acostumada a fazer até duas viagens internacionais por ano, a bancária tem conhecido mais destinos no Brasil. No ano passado, foi para as cidades históricas de Minas Gerais, além de Recife, em Pernambuco, e Gramado, no Rio Grande do Sul.

— Vamos esperar passar, tentar uma outra data e um dólar um pouco menos alto para retomar a viagem a Paris. Espero conseguir ainda esse ano — diz.

Investimento

Hotel do grupo Accor, da marca Ibis Style em Maragogi, aberto no ano passado. Rede pretende inaugurar seis hotéis este ano — Foto: Divulgação
Hotel do grupo Accor, da marca Ibis Style em Maragogi, aberto no ano passado. Rede pretende inaugurar seis hotéis este ano — Foto: Divulgação

‘Preferia juros menores, mas temos que nos adaptar à realidade’

Algumas empresas com investimentos planejados para o ano confirmam que vão seguir adiante mesmo com o cenário mais desafiador. É o caso da rede de hotéis Accor, que conta com 340 hotéis no país. Ela já assinou contrato para a abertura de outros 19, que vão consumir investimentos de R$ 700 milhões. O número se somará aos seis novos endereços previstos para abrir este ano.

Segundo Abel Castro, diretor de Desenvolvimento da Accor Américas, um dos focos de crescimento da companhia envolve o avanço dos hotéis de perfil econômico, com a marca Ibis, que responde por quase 70% do crescimento no ano passado. Em 2024, lembra ele, a receita por quarto, que mede a ocupação e o valor da diária, cresceu 11%:

— Em 2024, tivemos um crescimento tanto da ocupação quanto do valor da diária média, que conseguiu aumentar. A perspectiva é positiva para o Brasil. Ainda há bastante espaço para crescer nessas duas métricas.

Segundo Castro, a taxa de juros tem impacto na expansão. Para ele, a Selic no patamar atual é um dificultador. Porém, ele ressalta que o investimento no segmento é de longo prazo.

— A taxa de juros no patamar atual leva o investidor sempre a pensar se vai investir ou deixar o dinheiro em uma aplicação. Competimos com essas decisões, já que não somos os donos do ativo imobiliário. Claro que eu preferia que os juros fossem menores e os financiamentos mais adequados, mas temos que nos adaptar à realidade. Ainda assim, o investidor acredita no setor.

Fonte: O Globo

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