Para muitos adolescentes, nada parece pior do que passar tempo com os pais. Mas e se os laços familiares durante a adolescência significassem uma vida social melhor no futuro?
Um estudo publicado recentemente na revista JAMA Pediatrics constatou que uma relação próxima e acolhedora com os pais durante o ensino fundamental II e o ensino médio esteve associada a uma variedade de indicadores sociais positivos até duas décadas depois.
Os pesquisadores analisaram seis desfechos, como ter três ou mais amigos próximos ou socializar pelo menos uma vez por semana. Eles descobriram que um alto nível de conexão social na vida adulta era mais que o dobro comum entre aqueles que haviam sentido os vínculos familiares mais fortes na juventude, em comparação com aqueles que haviam sentido os mais fracos.
“Tendemos a pensar na solidão adulta ou na baixa conexão social como subprodutos de escolhas individuais ou de estruturas sociais da vida adulta”, comenta Andrew Garner, pediatra e pesquisador da Case Western Reserve University, que não participou do estudo. Este trabalho, por outro lado, “nos obriga a pensar em termos de desenvolvimento”.
Pesquisadores já sabem há muito tempo que uma relação forte entre pais e filhos está correlacionada ao bem-estar na vida adulta, mas a maioria dos estudos se concentrou em medidas internas, como autoaceitação ou senso de propósito, em vez de dimensões externas, como satisfação com os relacionamentos.
Mas, em uma era de redes sociais e redução do contato presencial — tão intensa que o cirurgião-geral dos Estados Unidos declarou, em 2023, uma “epidemia de solidão” — pesquisadores de saúde pública estão prestando mais atenção ao papel do isolamento nos desfechos de saúde, seja ansiedade, doenças cardiovasculares ou mortalidade precoce. Alguns profissionais de saúde também passaram a ajustar sua atuação de acordo com isso.
Robert C. Whitaker, autor do novo estudo e professor de pediatria clínica no Vagelos College of Physicians and Surgeons, da Universidade Columbia, tem buscado inverter a abordagem tradicional ao ajudar as famílias a entender o que podem fazer, em vez do que devem evitar.
“Na verdade, não estruturamos estudos para fazer esse tipo de pergunta”, conta. “Estamos sempre tentando identificar e mitigar riscos, e isso é válido, mas não necessariamente leva a uma compreensão completa do porquê as pessoas prosperam.”
Historicamente, a pesquisa sobre desenvolvimento social também tem se baseado em participantes relembrando a própria infância, um método sujeito às falhas da memória. Em vez disso, Whitaker e seus colegas usaram dados do National Longitudinal Study of Adolescent to Adult Health, que acompanhou uma coorte nacionalmente representativa de adolescentes desde o equivalente ao sétimo ano até seus 30 e 40 anos.
Estudos naturalísticos que acompanham indivíduos em tempo real são raros.
“Duas décadas de informação nos dão uma noção maior da verdade”, nota David Willis, professor de pediatria na Universidade Georgetown, que não participou do estudo. “Duas décadas de informação são convincentes. É algo muito significativo.”
Nos primeiros anos, os participantes avaliaram o quanto seus familiares os compreendiam, o quanto se divertiam juntos e se se sentiam cuidados e desejados, entre outras métricas. Whitaker e seus colegas fizeram a média das diversas respostas de cada um dos 7.018 participantes em “pontuações de conexão familiar” individuais e depois os agruparam em quartis.
Quando os adolescentes se tornaram adultos, foram questionados sobre a estrutura, a função e a qualidade de diferentes conexões sociais.
Após controlar variáveis de confusão, como raça, gênero e nível educacional dos pais, a equipe de Whitaker constatou que adolescentes no quartil mais alto de conexão familiar apresentavam uma prevalência de alta conexão social na vida adulta 23,4 pontos percentuais maior do que aqueles no quartil mais baixo.
Apenas 16,1% dos adolescentes no quartil mais baixo de conexão familiar acabaram com alta conexão social na vida adulta; 22% daqueles no segundo quartil mais baixo; 28,6% no terceiro; e 39,5% no quartil mais alto. A magnitude da associação foi consistente em todas as seis métricas usadas para medir o bem-estar social adulto.
“Muita coisa acontece entre os 16 e os 37 anos”, afirma Whitaker. “A vida é complicada. Há muitas variáveis intervenientes. Então, ter algo que ainda aparece como uma associação significativa ao longo de 20 anos é poderoso.”
Embora a pesquisa não tenha examinado os mecanismos envolvidos, especialistas acreditam que pais que estabelecem um tom relacional saudável estavam modelando habilidades e hábitos que seus filhos poderiam adotar e aplicar mais tarde.
Os autores escreveram que pediatras poderiam ajudar ao apoiar pais que não cresceram com esse tipo de relacionamento. Ao ajudar os pais a se sentirem seguros e vistos mesmo em tempos incertos, concluíram, eles poderiam, por sua vez, oferecer essa estabilidade aos filhos.
“Isso valida o que os pediatras tentam fazer todos os dias”, destaca Garner. “Claro, queremos que as crianças recebam suas vacinas, e adoramos ajudar os pais com marcos concretos como alimentação saudável, desfralde e sono adequado.
“Mas também queremos garantir que toda criança seja vista, compreendida e valorizada”, acrescenta, em nome da saúde de longo prazo. A expectativa é que haja um retorno significativo por gerações, afirma Willis. “Duas décadas depois”, pontua, “muitos daqueles adolescentes agora são pais.”
Fonte: Estadão



