Causas não tradicionais explicam a maior parte dos infartos na mulher com menos de 65 anos; conheça

Dissecção espontânea da artéria coronária é quase seis vezes mais comum nas mulheres, segundo levantamento da Mayo Clinic. Foto: dragonstock/Adobe Stock

Mais da metade dos infartos em mulheres com menos de 65 anos não é causada pela formação de placas nas artérias, conclui um estudo publicado no Journal of the American College of Cardiology.

Conduzida por profissionais da Mayo Clinic, nos Estados Unidos, a pesquisa reuniu mais de 15 anos de dados, de janeiro de 2003 a março de 2018, e constatou a predominância de causas não tradicionais nas pacientes mais jovens.

Considerando ambos os sexos, a causa mais comum de infarto foi a aterosclerose, doença caracterizada pelo acúmulo de gordura e consequente inflamação da parede dos vasos sanguíneos. Separados os pacientes, porém, ela representou apenas 47% dos episódios em mulheres, em comparação a 75% em homens.

Em pacientes do sexo feminino, fatores não tradicionais, como dissecção espontânea da artéria coronária (DEAC), embolia e vasoespasmo, foram o grande destaque.

“Essa pesquisa coloca no centro das atenções as causas de ataque cardíaco que historicamente têm sido pouco reconhecidas, especialmente em mulheres,” diz em nota a cardiologista intervencionista Claire Raphael, primeira autora do estudo. “Quando a causa raiz é mal interpretada, isso pode levar a tratamentos menos eficazes — ou até mesmo prejudiciais.”

Causas e sintomas específicos

O cirurgião cardiovascular José Cícero Stocco Guilhen, do Grupo Santa Joana, explica que o infarto do miocárdio ocorre quando há interrupção do fluxo sanguíneo para uma região do músculo cardíaco. “Isso acarreta falta de oxigênio e nutrientes, levando à morte das células cardíacas”, diz o médico, que não participou do estudo.

Segundo o especialista, na população geral, infartos podem se manifestar como dor ou queimação no peito que irradia para o braço esquerdo ou mandíbula. Em algumas mulheres, no entanto, os sintomas podem ser menos específicos.

A cardiologista Layla Benevides, do Hospital Sírio-Libanês em Brasília, elenca o que chama de “sintomas atípicos”:

  • sensação de mal-estar intenso;
  • falta de ar;
  • náusea;
  • vômitos;
  • desmaio;
  • dor nas costas;
  • dor no estômago;
  • cansaço extremo inexplicável.

“Essas diferenças (de sintomas entre homens e mulheres) são extremamente importantes porque fazem com que mulheres demorem mais a procurar atendimento, profissionais de saúde subestimem o risco cardiovascular feminino e o diagnóstico demore mais a ser feito” destaca Layla, que não integrou o estudo.

Diagnóstico incorreto

De acordo com o estudo, a DEAC, em que ocorre uma separação das camadas da parede arterial coronariana, é quase seis vezes mais comum nas mulheres. É também uma causa geralmente classificada de modo errado: 55% dos casos foram inicialmente avaliados como infarto tradicional.

Na prática, os especialistas alertam que erros dessa natureza podem impactar o acesso ao tratamento adequado. “Podem piorar o quadro clínico do paciente, com maior risco de complicações e morte”, reforça Guilhen.

“Quando o infarto é causado por dissecção de coronária ou estresse sistêmico”, explica Layla, “o mesmo tratamento indicado para um infarto causado por placa de gordura e trombo pode aumentar o risco de sangramento, piorar a lesão da artéria e gerar complicações desnecessárias”.

No caso específico de infartos causados por DEAC, os cardiologistas explicam que os sintomas tendem a ser muito parecidos com os de um infarto clássico, o que pode dificultar o diagnóstico. “Do ponto de vista clínico, não há como diferenciar apenas pelos sintomas. A principal diferença está no perfil da paciente”, aponta Layla.

Infecção, anemia e sepse

O estudo também mostrou que infartos associados a fatores de estresse sistêmico, como infecção, anemia e sepse, têm maior taxa de mortalidade em cinco anos, chegando a 33%.

Esse tipo de infarto tem alguns motivos para ter mais chances de pior desfecho em longo prazo. Layla explica que, nesse cenário, o coração sofre porque o corpo inteiro está sofrendo. “Há um desequilíbrio entre oferta e demanda de oxigênio do músculo cardíaco: o coração precisa de mais e o organismo entrega menos. Esses pacientes, em geral, já estão mais graves desde o início”, diz.

Além disso, ela destaca que idosos, pessoas com múltiplas doenças crônicas e com reserva cardíaca menor costumam ser as mais afetadas.

Para lembrar

Mesmo sem a presença de fatores de risco clássicos, como colesterol alto, pressão elevada ou histórico familiar, os cardiologistas ressaltam sintomas que não devem ser ignorados:

  • falta de ar súbita ou desproporcional ao esforço;
  • cansaço extremo e fora do padrão habitual;
  • dor no peito, nas costas ou na mandíbula;
  • desconforto no pescoço;
  • queimação no estômago;
  • peso nos ombros.

Além desses, os médicos destacam que náuseas, sudorese fria, mal-estar súbito, tontura, desmaio e palpitações persistentes também precisam ser avaliados por um médico, mesmo em mulheres jovens e sem fatores de risco.

Fonte: Estadão

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