Brasil atingiu a meta de cobertura para apenas 2 vacinas em 2025; veja quais

Brasil alcançou meta de cobertura para apenas uma vacina em 2025. — Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil

Segundo dados preliminares do Ministério da Saúde, em 2025 apenas duas vacinas bateram a meta de cobertura do Programa Nacional de Imunizações (PNI): a BCG, que protege bebês da tuberculose, com 96,8% do público-alvo alcançado, e a contra hepatite B para recém-nascidos, com 95,1%.

Embora o sarampo tenha provocado diferentes surtos nos Estados Unidos e no Canadá que levaram a região das Américas a perder o certificado de livre da doença, a cobertura com as duas doses tríplice viral, que evita sarampo, rubéola e caxumba, ficou em 79%. A contra a pólio, que causa paralisia infantil, também ficou abaixo de 90%. E a contra Covid-19 alcançou somente 3,5% das crianças.

As coberturas vacinais, historicamente elevadas no Brasil, começaram a cair a partir de 2015 e tiveram uma queda mais acentuada em 2020 com a pandemia. Desde 2022, o cenário começou a melhorar. No entanto, os números do ano passado mostram que o país ainda está longe de ter recuperado os índices antigos.

— As vacinas são vítimas do seu próprio sucesso. As famílias deixaram de ver colegas, parentes com meningite, poliomielite, sarampo, e passaram a achar que essas doenças estavam erradicadas. E vieram as fake news junto a uma extrema politização do tema. Nos últimos três anos, houve um esforço enorme do PNI, dos pediatras, das sociedades médicas, mas ainda temos coberturas abaixo de 90% para muitas vacinas — diz Eduardo Lima, presidente do Departamento Científico de Imunizações da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP).

Mônica Levi, presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm), lembra que as vacinas são as principais responsáveis pela ampliação da expectativa de vida nos últimos 50 anos. Um estudo da Organização Mundial da Saúde (OMS), publicado na revista científica The Lancet, estimou que, nas últimas cinco décadas, elas salvaram ao menos 154 milhões de pessoas, o equivalente a 6 vidas por minuto – 101 milhões delas de crianças.

— O primeiro calendário nacional brasileiro foi em 1977, só tínhamos BCG, pólio, sarampo e dtp. De quatro vacinas, evoluímos para um calendário extremamente completo. Doenças que eram um grande flagelo para mortalidade infantil, como diarreias, sarampo, pneumonias, passaram a ficar sob controle. Vivemos uma redução drástica na mortalidade infantil. Eliminamos tétano neonatal, rubéola congênita — afirma.

O cenário de desinformação, no entanto, preocupa especialmente enquanto campanhas como a de vacinação de crianças contra a Covid-19 alcançam menos de 5% do público. Isso embora a doença ainda tenha provocado mais de 2,7 mil internações de crianças com menos de 5 anos em 2025 no Brasil, segundo monitoramento do Ministério da Saúde.

— O vírus da Covid não desapareceu e nem desaparecerá. Ele passou a ser mais um vírus respiratório, como o Influenza, da gripe, e o VSR, da bronquiolite. O Brasil tem uma das maiores taxas de internação de crianças com menos de 2 anos por Covid. Infelizmente essa é uma das vacinas que mais sofrem com fake news. Às vezes vemos a caderneta toda completa, faltando só a vacina da Covid — diz Lima.

Além disso, uma das principais fake news, de que as vacinas poderiam causar autismo, já foi desmentida diversas vezes pelas autoridades de saúde. Em 2025, a OMS reafirmou que a relação não existe após um trabalho analisar dados de 1,2 milhões de crianças nascidas na Dinamarca entre 1997 e 2018 e a incidência de 50 doenças crônicas, como transtornos de neurodesenvolvimento e autismo.

— Lidar com hesitação vacinal, combater as fake news passaram a ser estratégias importantes que antes não existiam. Não tinha isso de escolher a vacina, desconfiar delas. Fora outras causas que afetam as cobertura, como dificuldade de acesso, funcionamento e horário dos postos. Hoje mães e pais trabalham e é mais difícil levar o filho. Às vezes, por questões logísticas, a criança vai e não é feita a vacina. Então tem outros gargalos também — complementa a presidente da SBIm.

Novidades no calendário brasileiro

Hoje, o PNI oferece cerca de 30 vacinas de rotina, para todas as idades, de forma gratuita. A mais recente a ser incluída, em novembro do ano passado, é a contra o vírus sincicial respiratório (VSR), principal causa da bronquiolite infantil.

A dose é indicada para mulheres grávidas, de todas as idades, a partir da 28ª semana de gestação. A meta do Ministério da Saúde é alcançar ao menos 80% do público-alvo. O objetivo é estimular a produção de anticorpos pela mãe, que são transferidos para o bebê e oferecem proteção posterior para o recém-nascido.

Nos estudos clínicos, a vacinação reduziu em 81,8% os casos de doença grave do trato respiratório inferior nos primeiros três meses após o nascimento e em 69,4% até seis meses depois. Esse momento é crucial porque o VSR é a principal causa de internação por síndrome respiratória em bebês abaixo de dois anos.

No ano passado, segundo o monitoramento da pasta da Saúde, foram registradas 36,1 mil internações por VSR na faixa etária, mais do que os casos causados por gripe e Covid-19 somados. Além disso, a faixa respondeu por 82,4% de todos os pacientes graves por VSR do país.

Globalmente, um estudo publicado na revista científica The Lancet estimou que mais de 3,6 milhões de hospitalizações e cerca de 100 mil mortes são causadas a cada ano pelo VSR em crianças de até 5 anos de idade, sendo que a maioria das mortes pediátricas (97%) ocorre em países de baixa e média renda, como o Brasil.

— Quando vemos a experiência do Chile e a vacinação, e uma redução importante dos casos de bronquiolite infantil, ficamos super animados com a expectativa para o Brasil. A resposta é rápida, acreditamos que em 2026 já vamos perceber uma redução na quantidade de crianças em filas de UTI. Mas para isso precisamos de uma alta cobertura vacinal — diz o médico da SBP.

Outra novidade é a possibilidade de adolescentes de 15 a 19 anos que não se vacinaram contra o HPV receberem o imunizante, que hoje faz parte do calendário de rotina de meninos e meninas de 9 a 14 anos. O imunizante diversos tipos de câncer, como de colo de útero e de pênis.

A estratégia de resgate terminaria no último mês de dezembro, mas foi estendida até junho deste ano. O objetivo do ministério é alcançar cerca de 7 milhões de jovens que estão desprotegidos. Outra mudança é que, seguindo recomendação da OMS, a vacina contra o HPV passou a ser administrada como dose única.

Os especialistas destacam ainda duas boas mudanças que devem ocorrer nos próximos meses. A primeira é a chegada das doses da vacina da dengue do Instituto Butantan no PNI. Hoje, há uma limitação produtiva da farmacêutica Takeda, que produz a Qdenga, primeira vacina a ter sido incorporada e aplicada em duas doses. Por isso, as aplicações têm sido restritas a adolescentes de 10 a 14 anos de determinados municípios com maior risco de dengue.

Já com a inclusão do imunizante do Butantan, primeiro de dose única, a expectativa é ampliar já o acesso a todas as crianças e adolescentes dessa faixa etária no Brasil e para trabalhadores da atenção primária à saúde. Em seguida, o plano é começar a vacinar a população geral a partir de 59 anos e ir reduzindo as idades até chegar a todos com 15 anos ou mais.

Em 2025, segundo dados do Painel de Monitoramento das Arboviroses do Ministério da Saúde, o Brasil registrou cerca de 1,7 milhão de casos de dengue e quase 1,8 mil mortes. Foi o quarto ano consecutivo em que o país bateu um milhão de infecções e mil óbitos, embora tenha sido melhor que 2024, quando houve o recorde de 6,5 milhões de diagnósticos e 6,3 mil vítimas fatais. Para este ano, uma projeção de especialistas estima que serão 1,8 milhão de casos.

Um desafio para a vacinação da dengue será alcançar as faixas etárias mais elevadas, já que adultos e idosos também têm vacinas indicadas no PNI, mas historicamente não dão a devida importância a estar em dia com as doses, afirma Mônica:

— Ainda se tem uma ideia de que vacina é só coisa de criança. Temos um calendário para o idoso quase tão grande e complexo quanto o infantil. Mas não faz parte da rotina médica checar se o paciente adulto está em dia com tétano, hepatite A, hepatite B. É uma forma de negligência, falta isso na cultura médica. O tétano, por exemplo, é uma doença gravíssima que mata, leva a muito sofrimento.

Ela também lembra que pessoas que têm comorbidades, como diabetes, câncer ou que vivem com HIV, têm calendários e orientações específicas e podem se consultar e receber determinadas vacinas que para a população geral estão acessíveis apenas na rede privada de forma gratuita nos Centros de Referência para Imunobiológicos Especiais do SUS (CRIE).

Além da ampliação da dose contra dengue, a segunda expectativa para 2026 é que o Brasil atualize a versão da vacina pneumocócica, que protege contra infecções graves causadas pela bactéria Streptococcus pneumoniae, como pneumonias, meningites e otites. Hoje, a dose usada para o público infantil no PNI é chamada de pneumo-10, que evita 10 sorotipos da bactéria.

A ideia é que ela seja substituída pela pneumo-13, pela pneumo-15 ou pela pneumo-20, que evitam mais sorotipos da bactéria. A mudança está em fase de análise pela Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS (Conitec).

— A vacina que usamos hoje não protege contra dois sorotipos importantes, o 19A e o 3. Então temos muita expectativa para a atualização para idealmente a pneumo-20, que abrange mais tipos da bactéria. Esperamos que isso aconteça ainda no primeiro semestre — afirma Lima.

Outra novidade esperada era a incorporação da vacina contra herpes-zóster no SUS para idosos e imunossuprimidos. No entanto, a Conitec foi contra devido ao alto custo do imunizante, recomendação que foi seguida pelo Ministério da Saúde em decisão publicada no Diário Oficial da União no último dia 12.

Fonte: O Globo

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