Fernando Haddad deixa o Ministério da Fazenda com um paradoxo difícil de ignorar: foi, ao mesmo tempo, a principal voz da necessidade de haver responsabilidade fiscal num governo com pendor pelo gasto e o rosto de uma política econômica percebida por muitos como excessivamente arrecadatória. Seu legado combina uma reforma tributária histórica e a tentativa de reconstruir regras fiscais com a luta permanente de tentar conter o expansionismo de gastos ditado por Lula e pela cozinha do governo.
Equilibrar esses pratos foi a tarefa diária de um ministro visado interna e externamente. Em muitos momentos, o fogo amigo do PT e de colegas de Esplanada provocou mais danos e foi mais difícil de administrar que os petardos lançados a partir da Faria Lima ou da oposição no Congresso.
Sua escolha, ao fim da jornada, para, mais uma vez, aceitar uma “missão” eleitoral fadada, de acordo com as pesquisas, a nova derrota, acaba mostrando que, no balanço de perdas e ganhos, o queridinho do presidente passou no teste de fogo de pilotar a economia, pelo menos de acordo com o crivo do chefe.
Haddad chegou ao cargo como aposta política de Lula, que viu em seu perfil “quase tucano”, como gostam de apontar os petistas, uma forma de tentar pacificar o mercado e, ainda assim, implementar a agenda social do terceiro mandato.
Nos primeiros meses, cumpriu o roteiro: apresentou o novo arcabouço fiscal, aproveitou o vento a favor da reforma tributária e se colocou como interlocutor confiável entre governo, Congresso e agentes econômicos. Era o “adulto na sala” num governo que precisava sinalizar previsibilidade depois de anos de turbulência institucional e do trauma deixado pela gestão desastrosa de Dilma Rousseff na economia.
Mas essa posição tinha um custo, e ele foi cobrado diariamente. Para fora, Haddad enfrentou um Congresso em que o governo era minoritário e altamente empoderado pelas emendas, que lhe deu vitórias importantes, mas impôs derrotas amargas e, sobretudo, elevou o preço da governabilidade.
Ao mesmo tempo, lidou com um mercado permanentemente desconfiado, que nunca comprou a promessa de equilíbrio fiscal sem cortes mais duros de gastos, só pela via da arrecadação — justificada sempre como medida de justiça tributária.
Ainda assim, essas não foram as tensões mais delicadas. Estas se deram dentro de casa. Haddad operou o tempo todo sob ataque das alas do próprio governo e do PT que viam sua agenda como excessivamente ortodoxa.
Na largada, suas medidas foram fustigadas diariamente pela presidente do partido, Gleisi Hoffmann, que chegou a montar um bunker paralelo para confrontá-las. A meta de déficit zero virou símbolo desse embate: enquanto o ministro tentava usá-la como âncora de credibilidade, o presidente e aliados tratavam de relativizá-la publicamente.
Na prática, o ministro foi empurrado para uma solução intermediária que nunca satisfez plenamente a ninguém: aumentou a arrecadação como pôde, mas não conseguiu avançar em cortes estruturais de despesas, agora prometidos para um eventual quarto governo Lula. Seu legado, portanto, não cabe em avaliações lineares.
—Seu maior mérito foi ‘enjaular’ o expansionismo fiscal atávico do PT —, diz o economista José Roberto Mendonça de Barros. Ele lembra que, a despeito de dados positivos da economia, a gestão do ministro não conseguiu romper o ciclo de crescimento medíocre nem a armadilha da renda média.
Para Bruno Carazza, da Fundação Dom Cabral, os maiores legados de Haddad são as reformas tributária e do IR.
—Não são reformas perfeitas, mas foi um feito notável aprová-las com uma base de governo tão frágil.
Agora lançado em outra disputa eleitoral que promete ser encarniçada, Haddad terá a árdua tarefa de defender sua gestão no estado que representa mais fortemente a oposição ao modelo econômico do PT. Não é a primeira roubada em que Lula o coloca. Não parece ser só o cálculo de finalmente ser reconhecido lá na frente como sucessor que o move a aceitar essas missões. Há um quê freudiano de relação entre pai e filho, de lado a lado, nesse balé.
Fonte: O Globo


