Política sem mulheres naturaliza a violência

Manifestantes protestam em frente ao MASP, na Avenida Paulista, em ato organizado pelo coletivo Levante Mulheres Vivas, que denuncia o aumento dos feminicídios e a violência contra a mulher - Bruno Santos/Folhapress

Mato Grosso encerrou 2025 com um dado que deveria constranger o poder público e mobilizar a sociedade: 54 mulheres assassinadas pelo fato de serem mulheres. É o maior número de feminicídios dos últimos cinco anos.

Ainda segundo o Observatório Caliandra, do Ministério Público, entre janeiro e fevereiro de 2026, outras quatro já foram assassinadas. Mais do que uma estatística, trata-se de um retrato brutal de como a violência de gênero segue naturalizada, previsível e ignorada.

A maioria dos crimes ocorreu em contextos de término de relacionamento, ciúmes e sentimento de posse. A casa, espaço que deveria representar proteção, foi o principal cenário das mortes. Apenas no ano passado, 87 crianças e adolescentes ficaram órfãs de mãe em decorrência do feminicídio neste estado.

O problema começa nos próprios registros: enquanto o Ministério Público aponta 54 casos, a segurança pública registra 53. Quando nem os números dialogam, evidencia-se o quanto a vida das mulheres ainda não é prioridade.

Esse cenário não é exclusivo de Mato Grosso. O Brasil segue entre os países com maiores índices deste crime no mundo, e o tema ocupou o debate nacional ao longo dos últimos anos.

Ainda assim, as respostas seguem limitadas, em grande parte porque continuam sendo formuladas sem a participação efetiva das mulheres.

Em Mato Grosso, a sub-representação feminina é evidente. O estado nunca teve uma governadora. Na Assembleia Legislativa, apenas uma mulher ocupa uma das 24 cadeiras. No Senado, nenhuma mulher representa o estado.

Nos municípios, apenas 13 das 142 prefeituras são comandadas por mulheres, apesar de elas representarem quase metade da população do estado.

Fala-se sobre violência contra a mulher sem mulheres nos espaços de decisão. Discutem-se políticas públicas, campanhas e estratégias sem ouvir quem vivencia essa realidade cotidianamente. O resultado são ações fragmentadas, muitas vezes simbólicas, que não enfrentam a raiz do problema.

É fundamental romper também com a narrativa que coloca as mulheres apenas no lugar de vítimas. Em Mato Grosso, pesquisadoras, coletivos feministas e lideranças comunitárias constroem diariamente respostas, acolhem vítimas e pressionam o Estado.

Iniciativas institucionais buscam mapear falhas e propor políticas mais eficazes, mas ainda enfrentam limites impostos pela baixa presença feminina no poder.

Em ano eleitoral, essa discussão ganha urgência. Eleger mais mulheres, especialmente comprometidas com a pauta dos direitos das mulheres, não é apenas uma questão simbólica, mas uma estratégia concreta de enfrentamento à violência. Políticas pensadas com mulheres tendem a ser mais conectadas à realidade e mais eficazes.

A história de Juliene Gonçalves, assassinada em 2012 em Cuiabá, permanece como ferida aberta. Quantas outras serão necessárias para que mulheres deixem de ser apenas números e passem a ser protagonistas das decisões que impactam suas vidas?

O enfrentamento ao feminicídio exige mais do que discursos: exige participação feminina real, decisão política e responsabilidade coletiva. Enquanto mulheres seguirem fora dos espaços de poder, seguirá sendo comum falar sobre elas e decidir por elas.

Por Marcelo Natal Borges – jovem Transformador Ashoka, é jornalista e mestrando em comunicação pela Universidade Federal de Mato Grosso

Rosana Leite Antunes de Barros – Defensora pública estadual, mestra em Sociologia pela UFMT, membra do IHGMT (Instituto Histórico e Geográfico de Mato Grosso) e da Academia Mato-grossense de Direito na Cadeira 29

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