EUA prometem aumentar produção de petróleo na Venezuela: qual é o impacto no Brasil e na Petrobras?

Plano de Trump para a Venezuela afetaria Petrobras — Foto: Divulgação/Foresea

A expectativa de aumento da produção de petróleo na Venezuela — se a promessa do presidente americano, Donald Trump, se concretizar — deve impactar diretamente a Petrobras. O país vizinho tem as maiores reservas de petróleo do mundo, mas a produção, que já alcançou cerca de 3,5 milhões de barris por dia em 1970 e antes do início do chavismo, chegou a cair para menos de 1 milhão. Para especialistas, o avanço potencial da exploração venezuelana, somado a uma oferta maior de óleo prevista com projetos em Guiana e Suriname, tende a forçar a estatal brasileira a antecipar o início da produção na Margem Equatorial.

Os contratos futuros do petróleo encerraram em forte alta no pregão de ontem, em meio à intensificação das tensões geopolíticas após o ataque dos Estados Unidos à Venezuela no último sábado, que resultou na captura do presidente venezuelano Nicolás Maduro e de sua esposa, Cilia Flores. O movimento refletiu a avaliação do mercado de maior risco à oferta global da commodity.

Segundo Roberto Ardenghy, presidente do Instituto Brasileiro de Petróleo e Gás (IBP), a Petrobras deve sentir reflexos a médio e longo prazos, quando a produção da Venezuela começar a aumentar com mais intensidade. Ele lembra que a estatal vai precisar ampliar sua atratividade, com redução de custos e maior investimento em tecnologia.

— Em dois anos, se os planos de Trump derem certo, a produção na Venezuela pode aumentar para cerca de 400 mil barris por dia. Portanto, os efeitos serão percebidos no médio e longo prazos. Haverá uma disputa por investimento internacional, e a Petrobras precisará ser mais atrativa.

Segundo Ardenghy, o efeito imediato é o encarecimento dos custos de frete e seguros com o clima de conflito na região. Ele lembra que grande parte da rota de transporte de petróleo e derivados entre Brasil e Estados Unidos passa pela região do Caribe.

— Haverá um aumento entre 10% e 15% nos custos com a atual situação na Venezuela. Temos agora um cenário de instabilidade na região. Além disso, há a perspectiva de aumento de produção na Guiana e no Suriname. Isso é uma preocupação para a Petrobras e para o Brasil, pois estamos em um momento de reposição de reservas.

Disputa por capital

Quanto à oferta de petróleo, já há o aumento da produção na Guiana, cujo principal projeto, liderado pela americana ExxonMobil, deve passar dos atuais 900 mil barris por dia para 1,3 milhão em dois anos. O Suriname, com mais de 750 milhões de barris recuperáveis, vai receber neste ano a primeira plataforma da francesa TotalEnergies, que deve iniciar a produção em 2028.

— Com o aumento da produção na Venezuela há um cenário de queda de preços, já que a demanda cresce menos do que a oferta. Para a Petrobras, isso é ruim. Para a Margem Equatorial, também. A Venezuela pode se tornar um destino geograficamente mais atrativo para investimentos da indústria. O Brasil também disputa esse capital, mas perde competitividade com um novo concorrente vizinho — afirma Pedro Rodrigues, do Centro Brasileiro de Infraestrutura (CBIE), destacando que a Petrobras precisará demonstrar ainda mais eficiência e disciplina de capital, além de lidar com a política de dividendos. — É um novo cenário que a companhia terá de enfrentar.

Rafael Chaves, professor da Fundação Getulio Vargas (FGV) e ex-diretor da Petrobras, destaca que os reservatórios da Venezuela já são conhecidos e os investimentos para extrair petróleo tendem ser mais rápidos, reforça a importância de acelerar a exploração na Margem Equatorial:

— O Brasil precisa ter pressa, porque o cenário global tende a se tornar cada vez mais competitivo. Se antes já era necessária mais velocidade, agora essa urgência é ainda maior. É fundamental uma coordenação mais eficiente entre o Ministério do Meio Ambiente e o setor de energia.

Marcus D’Elia, sócio-diretor da Leggio Consultoria, também vê incentivo adicional à exploração da Margem Equatorial, “inicialmente para compensar a redução da produção nacional a partir de 2033 e 2034 e para ofertar um petróleo de melhor qualidade do que o venezuelano no mercado internacional”.

Enquanto a Venezuela tem cerca de 303 bilhões de barris em reservas comprovadas, a Margem Equatorial tem reservas estimadas em 30 bilhões, segundo estudo da CBIE. O geólogo Pedro Zalan destaca que as reservas venezuelanas estão localizadas em terra e em águas rasas, diferentemente da Margem Equatorial, do Suriname e da Guiana, onde a produção se concentra em águas profundas e ultraprofundas, o que deixa a produção venezuelana mais barata.

Fonte: O Globo

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